Até tu Decanter?
Até tu, Decanter?
Outro dia escrevi sobre as leveduras selecionadas e seus milagrosos “nutrientes”, capazes de produzir, em qualquer canto do planeta, um vinho rigorosamente típico da casta. Uma maravilha da tecnologia moderna. O terroir pode tirar férias. A natureza também.
É o McDonald’s do vinho. Você entra em qualquer país, pede um Syrah e ele vem com exatamente o mesmo sabor. Padronização total. Que conforto.
Os vinhos de dupla poda, então, são a cereja desse bolo industrial. Recebem investimentos faraônicos para transformar o interior de São Paulo numa espécie de parque temático dos grandes vinhedos do mundo. Você economiza uma passagem para o Rhône. Basta pegar a Fernão Dias.
Claro que existe um pequeno detalhe inconveniente.
Esses vinhedos utilizam uma carga de insumos que faria muito produtor europeu perder o sono. Entre eles, o famoso Dormex, produto banido em vários países. No Japão, por exemplo, alimentos produzidos com ele simplesmente não entram. Mas quem liga para essas miudezas? O importante é a foto da taça contra o pôr do sol.
E eis que chega a cereja da cereja.
O Decanter World Wine Awards, talvez o concurso de maior prestígio do planeta, acaba de distribuir nada menos que 78 medalhas para vinhos de colheita de inverno.
Até tu, Decanter?
Calma. Antes que alguém imagine um complô internacional, não é disso que estou falando.
O avaliador recebe uma taça identificada apenas como “Syrah – América do Sul”. Ele não sabe se aquilo nasceu numa fazenda da Mantiqueira ou num laboratório da NASA. Mas ele tem a referência da Syrah das encostas do Rohne… então observa a cor, gira a taça, procura aromas, prova, cospe e atribui uma nota baseada naquilo que acredita ser uma Syrah de qualidade.
E aí entra a mágica.
Hoje os laboratórios oferecem praticamente um cardápio aromático. Quer mais violeta? Tem. Pimenta-preta? Tem. Ervas secas? Também. Mais volume de boca? Mais textura? Taninos mais dóceis? Tudo isso vem em sachês tecnológicos muito antes da garrafa receber o rótulo.
As leveduras fazem o resto.
Resultado?
Bingo!
Acaba de nascer uma Syrah “autenticamente” Rhône… produzida na Serra da Mantiqueira.
Quase uma impressora 3D de terroir.
E o degustador, evidentemente, julga o que está na taça. Não tem como julgar aquilo que jamais lhe contaram.
O problema nunca foi o júri.
O problema é o sistema.
Estamos falando de uma planta que passou milhões de anos aprendendo a obedecer às estações. Dorme no inverno, desperta na primavera, amadurece lentamente sob o ritmo da natureza e entrega uma fruta carregada da história daquele lugar. Depois, suas próprias leveduras concluem silenciosamente o trabalho iniciado no vinhedo.
Essa sempre foi a poesia do vinho. Essa é a natureza.
Mas aí vem o homem com suas habilidades e presunção e a poesia virou um detalhe antiquado.
Agora vale a engenharia.
Se a natureza não coopera, força-se a natureza.
Se o clima não ajuda, fabrica-se o clima.
Se o vinho não lembra o Rhône, acrescenta-se um empurrãozinho microbiológico até lembrar.
E pronto.
Missão cumprida.
O curioso é que ainda insistimos em chamar isso de autenticidade.
Hoje parece que pouco importa o que o vinho é.
Importa apenas aquilo que ele consegue convencer você de que é.
Vivemos a era em que a percepção derrotou a realidade.
Se você acredita que aquela Syrah da Mantiqueira é igualzinha à do Rhône, objetivo alcançado.
E, se ainda restar alguma dúvida, basta apontar para o adesivo dourado na garrafa.
“Gold Medal – Decanter.”
Porque, aparentemente, hoje medalha também serve como certificado de terroir.
Como é extraordinário o avanço da enologia moderna. Durante séculos os produtores perderam tempo procurando terroirs excepcionais. Bastava desenvolver uma boa levedura.”
Agora o conceito de terroir finalmente evoluiu. Antes ele dependia de solo, clima, geologia e séculos de história. Hoje depende de um catálogo de aditivos muito bem elaborado…
Confesso que passei décadas enganado. Achava que uma videira precisava respeitar as estações do ano. Felizmente a indústria mostrou que quem manda mesmo é a química.