La vem o Don Vinagre…

Don Vinagre
E agora? Qual será a próxima ladainha?
O mundo do vinho tem uma característica admirável: ele nunca fica sem um discurso da moda.
Não importa a época. Sempre existe uma nova verdade absoluta, uma nova salvação da lavoura, uma nova palavra mágica que precisa ser repetida à exaustão até que todos acreditem nela. Ou pelo menos finjam acreditar.
Houve a época da barrica.
Ah, a barrica…
Durante alguns anos parecia que vinho bom era apenas aquele que tivesse passado por uma quantidade obscena de carvalho francês. 200 % de barrica nova!!!!
Os produtores falavam das florestas de Allier, Tronçais e Nevers com mais emoção do que falavam dos próprios filhos. Alguns davam a impressão de que o vinho era apenas um detalhe. O importante mesmo era a madeira.
Se dependesse da quantidade de barricas mencionadas nas palestras realizadas naquele período, a França hoje seria um deserto.
Depois veio a fase do “o vinho é feito no vinhedo”.
Uma frase maravilhosa.
Tão maravilhosa quanto conveniente.
Era repetida por pessoas que possuíam adegas recheadas de equipamentos, aditivos, enzimas, taninos, leveduras selecionadas, nutrientes, corretores, estabilizantes e tudo o mais que a moderna indústria enológica consegue produzir.
Mas o vinho era feito no vinhedo… Claro.
Em seguida surgiu o terroir.
Aí a coisa atingiu níveis quase religiosos.
Produtores passaram a pronunciar a palavra “terroir” com a mesma solenidade de um sacerdote recitando um texto sagrado.
Tudo era terroir.
Só não era muito recomendável perguntar sobre a ficha técnica do vinho. Certas leveduras industriais, correções de acidez e intervenções diversas tinham o estranho hábito de desaparecer da conversa exatamente quando o assunto era terroir.
Coincidência, certamente.
Agora o discurso da vez é sustentabilidade.
E que espetáculo.
Hoje não existe vinícola no planeta que não esteja salvando o mundo.
Você abre um site e descobre que eles estão preservando o planeta.
Abre outro e eles estão regenerando ecossistemas.
Abre um terceiro e eles estão restaurando a harmonia universal.
Mais alguns anos e haverá produtores reivindicando crédito pela estabilização do eixo terrestre.
Evidentemente, sustentabilidade é importante.
Muito importante.
O problema é que o setor do vinho tem o péssimo hábito de transformar qualquer tema sério em material publicitário.
Primeiro vem a causa.
Depois vem o selo.
Depois vem a certificação.
Depois vem o consultor.
Depois vem a palestra.
Depois vem o prêmio.
E finalmente vem o departamento de marketing para explicar por que aquela vinícola específica é a única responsável pela sobrevivência da humanidade.
Por isso fico ansioso. Qual será a próxima moda?
Neutralidade climática?
Biodiversidade holística?
Videiras emocionalmente equilibradas?
Uvas cultivadas sob influência de frequências quânticas certificadas?
Alguma coisa virá.
Sempre vem. E quando vier, metade do setor passará a repetir o novo mantra como se tivesse acreditado nele desde o nascimento.
A outra metade fará o mesmo alguns meses depois.
E quem ousar levantar uma sobrancelha será imediatamente acusado de ser retrógrado, ignorante ou, pior ainda, alguém que faz perguntas.
Até lá, seguimos observando.
Porque no vinho as safras mudam todos os anos.
Mas as modas mudam ainda mais rápido.
E nada envelhece tão depressa quanto a verdade absoluta da temporada passada.
Afinal, produzir vinho dá trabalho. Muito mais fácil é produzir discurso. E nisso o setor atingiu níveis de excelência verdadeiramente internacionais.