Don Vinagre o o Brasil a bola da vez

Ah, o Brasil… a “bola da vez” no mundo do vinho.
Senta lá.
Sempre me diverte — e confesso, diverte mesmo — quando algum produtor europeu, recém-saído de uma feira com ar-condicionado e otimismo inflado, solta aquela pérola: “Agora vai! Mercosul, crescimento, Brasil… é o futuro!”
Hahahahaaa. Claro. Aí você respira fundo e resolve estragar a festa. Porque alguém precisa.
Primeiro: esse tal “crescimento” que encanta os olhos europeus vem com dois pequenos detalhes — minúsculos, quase irrelevantes… só que não.
O famoso “3 litros per capita”? Não, meu caro, sei que é muito pouco, mas na verdade ele é ainda menor… são 3 garrafas.
Essas 3 garrafas foram calculadas com base em adultos, o que é uma ginástica estatística digna de medalha olímpica. Per capita de verdade inclui todo mundo — do recém-nascido ao nonagenário. Mas enfim, deixemos a fantasia correr solta.
E dessas 3 garrafas? Metade é vinho de mesa. Sim, aquele nível “fragolino feelings” que ninguém nessas feiras quer admitir que existe. Ou seja: já caímos para 1,5 garrafa de algo minimamente relevante.
Mas calma que piora — porque sempre piora. Depois de esclarecer a ele que os Jardins não representa São Paulo e que São Paulo não representa o Brasil, você aprofunda mais a coisa…
Dessas 1,5 garrafas, cerca de 80% são vinhos baratinhos, coisa de € 1. Aquele tipo de vinho que ninguém atravessa o Atlântico para vender achando que vai enriquecer.
Resumo da ópera: o tal “mercado promissor” que encanta os europeus é, na prática, uma briga sangrenta por uma migalha — uma fração de uma garrafa — disputada por algo como 20 mil marcas. Um verdadeiro coliseu, só que com rótulos.
E o crescimento? Ah, sim, o glorioso crescimento…
4%. Em uma fatia minúscula. De um nicho já espremido.
Mas claro, parece lindo no PowerPoint. Só que não é consumo, é apenas o feeling do importador em suas compras para o próximo ano, pois é o brasileiro é otimista e esquece que só quem ganhou dinheiro com feelings foi o Morris Albert… ops desculpe a piada velha.
Aí entra o capítulo Mercosul–União Europeia, essa novela que nunca acaba. “Agora vai!”, dizem eles. Vai nada. Metade do Parlamento Europeu é contra, tem ação judicial, tem resistência política… mas o otimismo segue firme, quase comovente.
E mesmo que passe — esse detalhe inconveniente — o que muda? O imposto de importação de 27% vai cair… aos pouquinhos. Lentamente. Com carinho. Até zerar.
Só esqueceram de avisar que o resto da festa continua: impostos, taxas, burocracia… aquela combinação charmosa que leva o custo total para perto de 70%. Sem contar o labirinto administrativo que faria Kafka pedir demissão.
E quando você menciona que existem 17 etapas de custos entre a origem e o importador… pronto. Nesse momento, o brilho no olho europeu começa a piscar.
Aí vem a parte que realmente dói: você explica que, do preço na vinícola até a taça do brasileiro, o vinho pode chegar custando de 5 a 10 vezes mais.
O encanto acaba. A realidade chega sem pedir licença.
Então você dá aquele tapinha no ombro, serve uma taça e conclui, com toda a elegância possível:
“Bem-vindo.” Porque o Brasil, sim, é maravilhoso.
Povo incrível, energia única, natureza de cair o queixo.
Mas o resto…
Saúde.