Pois é… e agora? E toda aquela memória?
Meu Amigo Carlos Cabral se foi. Para onde não sei, mas se a Nazira estava certa, ele deve estar sendo recebido com Vinho do Porto e honras de Estado por Dona Ferreirinha e o Barão de Forester, no mínimo!!

Tres coisas me ligaram fortemente ao Cabral e ajudaram a solidificar nossa Amizade; Amor e fidelidade a esposa. Algo raríssimo nos dias atuais, acho que sempre foi, mas atualmente é mais. Ele tinha uma admiração, um respeito, um carinho, uma amizade e uma fidelidade com a Leda de chamar a atenção. Éramos iguais nisso. Em segundo tinha uma sinceridade e uma naturalidade de falar o que pensava fosse a quem fosse que mostrava bem sua personalidade outro ponto em que somos ou fomos muito semelhantes. E, claro o bom humor. Sempre bom humor.
O Cabral era de uma solidariedade incrível, quando Ele e Leda souberam do cancer da Nazira, fizeram questão de nos recepcionar em sua casa num almoço elegantérrimo, que você pode saber mais AQUI. Anos depois quando tive um câncer o mesmo, ele fez questão de abrir um Porto de 140 anos para mim num almoço pantagruélico entre outras preciosidades raras que você pode saber AQUI e também AQUI.

Cabral era um anfitrião raro. Um cara igual mas que gostava da formalidade e da etiqueta, inclusive fez um livro (entre tantos outros), lindo sobre A Mesa e a Diplomacia no Brasil. Ele e o Luiz Horta viviam trocando informações e links a respeito de etiqueta… hahahahaaaa E super discreto com suas honrarias no Mundo do Vinho, veja abaixo esta comenda que nunca comentou com ninguém. Super Show isso. aliás sua casa poderia ser transformada em um mini Museu com o que tem lá…

Quando o conheci na Casa Cabral, lhe contei que deveríamos ter nos conhecido muito antes, pois quando ele fundou a SBAV, um Amigo comum nosso, o Antonio Sabino de Souza Neto, irmão do Aurisol que fora chefe do Cabral quando ele trabalhava com produtos médicos, me havia dado uma ficha de inscrição da SBAV. E o Cabral me perguntou, e você não entrou na SBAV por que? E eu expliquei que na ficha perguntavam: Quando teve contato com vinho pela primeira vez? E eu respondi: Antes de mamar em minha Mãe… hahahahaha a Nazira na ocasião me disse, você não vai entregar isso assim, e então acabei por não entregar a ficha e nem entrar para a SBAV…
Curioso, o Cabral quis saber da história e quando lhe contei que meu avô materno havia me dado uma colherzinha das de chá de Vinho Porto da quinta de seu pai antes mesmo que eu mamasse em minha Mãe, ele ficou emocionado. emocionado mesmo, nos olhos e na voz. E me disse; puxa vida Didú eu tenho tantas honrarias no Vinho do Porto, mas nunca poderei ter essa que você teve… ficamos Amigos de imediato.

Cabral mostra como segurar a taça oficial de Porto
Cabral tinha um senso de humor fenomenal, aliás característica que o ajudou a superar a morte de um filho, coisa que secondo me deveria ser proibido! está entre minhas queixas que Deus ouvirá quando o chatododidu morrer… certamente. Pra que isso? Pô!!
Para vocês terem uma idéia, certa vez me contou que quando morresse queria que a Leda abrisse todas as suas garrafas de Vinho do Porto e servisse no velório. Jura Cabral? Por que? Perguntei. E ele me diz: “Didú, meus filhos não bebem, não gostam de vinho, então pedi isso a Leda, só para ver a cara no dia seguinte de quem não foi ao velório ao encontrar com algum amigo e ouvir: Fulano, você não foi ao velório do Cabral e não sabe o que perdeu… Hahahahahaaa. Na ocasião rimos tanto e disse-lhe que isso merecia uma crônica. Faça, me disse ele. E eu fiz. “Os vinhos do Velório” – lamentavelmente não encontrei aqui para publica-la – e quando terminei e li para minha mulher e filhos, todos me disseram, você não vai publicar isso. Mas o Cabral me autorizou, repliquei ! Não senhor, ao menos mande ao Cabral primeiro. Era tempo do fax, enviei a ele que adorou o texto, me elogiou e autorizou a publicar. Eu escrevia na revista RSVP da Caras nessa ocasião que tinha bastante repercussão.
Pois foi um quiprocó danado… pessoas que não lêem tudo telefonaram a Leda dando pêsames, a Diretoria do pão de Açúcar se reuniu e decidiu me processar… colegas de imprensa do vinho me criticaram pelo mau gosto e tal e ele e eu ríamos a valer disso. Também costumava dizer que queria ser cremado e ter suas cinzas jogadas no Douro… e eu sempre que ouvia-o dizer isso logo me prontificava desde que ele deixasse os proventos para isso… hahahahaaaaa. ah… Cabral…
Acabo de voltar do velório desse querido Amigo – já adianto que não teve Porto algum servido não – que merda isso, ve-lo alí gelado, imóvel, sem poder falar nada, logo ele falador como eu… será que nos via? Será que nos ouvia? Fiquei imaginando que em sua casa deveria ter ficado algum Porto já decantado que deixara para outro dia… um pedaço de toucinho do céu que ele gostava de furar com o garfo e despejar um pouco de Porto por cima… as coisas dele no quarto, agora vazio.
Para onde foi aquela imensa memória privilegiada dele? Em que ponto estaria seu livro de memórias que sempre cobrava dele terminar? Será que faltava muito? Será que ele mentia pra mim e nunca fez nada?… O fato é que acabou o Cabral. Nosso grupo Mais de 300 anos ficou desfalcado de Cultura, Alegria e Amizade sincera. Aliás foi em nosso último almoço que ele teve que faltar pelo problema que surgiu no coração que o levou a morte. Que merda isso. Insubstituível.

Pagliari, Cabral, Zé Maria e Didú
Foto de Edu Milan em junho na Tasca do Zé e da Maria
O legado do Cabral é imenso e incomparável, especialmente com o Porto. Este “Infanção” produziu um dicionário com o sr. Manuel Pintão, que não havia sido feito nunca!. Tenho aqui para quiser ver, dois vídeos sobre isso, um do Cabral no meu antigo programa de TV na CNN e outro anos depois no lançamento do Dicionário, Vejam:
E os Cabralzinhos, cerca de 500 jovens que foram educados e treinados por ele em pessoa para serem atendentes de vinho no Pão de Açúcar, um deles inclusive, o Ivan Bianchi hoje ocupa o cargo que foi do Cabral. Veja que lindo isso. Se dez por cento dos profissionais do Mundo do Vinho tivessem construído o que o Cabral construiu, certamente este país teria mais qualidade, mais consumo de Vinho, mais conhecimento.
E inúmeros podcasts, entrevistas, programas de rádio, artigos de revista e jornal, um espetáculo de performance que agora deixou um enorme legado mas também um enorme buraco. O Mundo do Vinho hoje está oco, perplexo e triste. O Cabral não podia morrer… Não gosto de ficar triste, mas hoje não teve jeito.