O que eu “acho” procuro e nunca encontro.

Don Vinagre
Claro que o que eu acho não interessa a ninguém. E, sinceramente? Talvez seja exatamente por isso que eu tenha vontade de escrever. Porque no mundo do vinho todo mundo quer agradar, posar, aparecer… e quase ninguém quer dizer o óbvio.
Mas como o Didú me cede eventualmente este espaço, este texto é meu e não um release patrocinado de ego coletivo, vou falar mesmo assim.
Eu acho que o mercado do vinho no Brasil poderia ser dez vezes maior. Fácil. Bastava o “setor” agir como setor. Mas não… aqui cada um acha que o concorrente é o inimigo, enquanto o verdadeiro inimigo gargalha do lado de fora vendo a infantilidade coletiva.
Eu acho que se o governo zerasse os impostos do vinho em troca de campanhas sérias de consumo responsável, o consumo cresceria, a gastronomia cresceria, o turismo cresceria e talvez até o brasileiro aprendesse que vinho não é troféu de Instagram. E de quebra o governo economizaria uma fortuna em saúde pública. Mas isso exigiria estatura, inteligência estratégica — artigo raríssimo em Brasília e também no vinho.
Eu acho que o brasileiro deveria parar de usar vinho como extensão do próprio ego. Vinho não foi feito para foto, foi feito para mesa. Uma taça por refeição faria mais bem à saúde e ao cérebro do que muito influencer berrando harmonização de camarote.
Eu acho que boa parte da imprensa do vinho escreve para impressionar meia dúzia de colegas ressentidos e não para ajudar quem compra a garrafa. Resultado? Um monte de texto pomposo, inútil e masturbatório que afasta o consumidor em vez de aproximá-lo.
Eu acho que as lideranças do vinho brasileiro são, na melhor das hipóteses, decorativas. Na pior, caricaturas ambulantes de vaidade, miopia e politicagem de condomínio.
Eu acho fascinante como essas lideranças representam perfeitamente o Brasil: vivem do ICMS que 90% vem do vinho de garrafão e só falam do vinho fino… a minoria manda, não representa ninguém e ainda assim se acha iluminada. Mais brasileiro que isso impossível.
Eu acho que restaurante deveria ganhar valor fixo por garrafa de vinho. Aí acabaria essa palhaçada de multiplicar preço em cima do vinho barato até ele virar assalto à mão armada. O consumidor beberia melhor, o restaurante venderia mais e o vinho deixaria de ser tratado como artigo de luxo para otário deslumbrado.
Eu acho que todo restaurante sério deveria ter pelo menos 20% da carta com vinhos brasileiros. Porque existem vinhos muito bons no Brasil. O problema é que muitos preferem importar rótulo medíocre europeu para parecer sofisticados diante de cliente inseguro.
Eu acho que os governos estaduais (especialmente São Paulo), deveriam extinguir o ICMS de restaurantes pois eles são um instrumento fundamental na atração turística.
Eu acho que os restaurantes deveriam respeitar mais os sommeliers.
E eu acho que muitos sommeliers deveriam urgentemente descer do pedestal. Menos estrelismo, menos performance teatral, menos pose e mais discrição. O vinho agradeceria.
Eu acho que certos esquemas de vinho ilegal só continuam existindo porque muita gente poderosa está lucrando com isso. Porque acreditar que isso cresce há anos sem punição é ter fé demais na ingenuidade humana.
Eu acho que só um completo IDIOTA compra vinho desses “espertinhos” das listinhas mágicas de WhatsApp.
Aliás, eu acho que todo mundo deveria olhar para o amigo que compra vinho clandestino achando que fez “negócio” e gritar:
— PARABÉNS, GÊNIO. VOCÊ É UM IDIOTA PREMIUM.
Eu acho que quem importa vinho legalmente deveria parar de apanhar calado. Recolher imposto em juízo e processar o Estado por insegurança jurídica e falta de proteção policial, afinal o vinho fica caro por conta dos absurdos tributos e burocracias… talvez fosse o começo de alguma reação digna.
E finalmente…
Eu acho que deveria existir mais gente chata, inconveniente e sincericida no vinho. Porque o setor já está suficientemente intoxicado de falsidade, vaidade performática, puxa-saquismo e ignorância embalada em francês mal pronunciado.
Mas enfim…
Isso é apenas o que eu acho.
E graças a Deus ainda não criaram imposto sobre opinião ácida.
por Don Vinagre