A Imprensa do Vinho que se Acha Premier Cru mas é um Reservado.
A Imprensa do Vinho que se Acha Premier Cru mas é um Reservado.
Por Don Vinagre
A imprensa de vinho anda mais narcisista que espelho de camarim. Já não escreve pro leitor, escreve pro próprio reflexo. Virou uma confraria de espelhos. Um clube onde o ingresso não é conhecimento, mas a capacidade de posar com a taça no ângulo certo. Escrevem para meia dúzia de iniciados — e, de preferência, para si mesmos. O resto que se dane. O importante é ele aparecer. Fato é só onde ele esteve…

O texto? Um palavrório ornamental que serve mais para afastar do que aproximar. A cada adjetivo pretensioso, o leitor comum se sente mais burro e a vaidade do autor engorda. É quase um teste de resistência: se você não entendeu, parabéns, passou na prova de que não pertence a esse clube.
Missão de popularizar o vinho? Que piada. Isso não paga viagem pra Bordeaux nem garante camarote em evento. Mais fácil é continuar dando nota pra rótulo de mil reais que ninguém vai comprar, e fingir que todo brasileiro tem taça Riedel na cristaleira e Sommelier particular na cozinha.
Enquanto isso, o consumidor que poderia se apaixonar por vinho continua intimidado. Tem medo de pedir um Merlot achando que precisa de autorização. E se diz que gosta de vinho doce, é tratado como herege que merece exílio. Mas a ignorância não é dele — é da imprensa que perdeu a noção do papel que tinha.
Hoje, muito jornalista de vinho queria mesmo era estar na Caras, lado a lado com subcelebridades, mas caiu por engano numa revista especializada. E, não satisfeito, ainda posa de “guardião da cultura do vinho” enquanto caça convite, brinde e viagem internacional.
O pior? Tudo isso sob a bandeira de uma tal “paixão pelo vinho” que, no fundo, é paixão pela própria imagem refletida na taça.
A tal “paixão pelo vinho” que eles pregam é tão verdadeira quanto as lágrimas que fingem ver na taça: pura encenação. A paixão real é pela própria foto estampada em rede social, de preferência com legenda em francês pra dar “credibilidade”.
Don Vinagre sugere; escreva para quem ainda tem a ousadia de beber sem pedir bênção, para quem não confunde tanino com talco e, mesmo assim, merece respeito no gole. Não faça teatro, não use vinho como espelho e não dependa de adjetivo raro para parecer profundo.
Porque falar de vinho pra quem já ama é covardia. Quero ver falar com quem nunca teve o prazer de um gole que muda o dia. Sem mistério, sem altar, sem ego — e com a honestidade que essa gente parece ter engarrafado e guardado só pra si.
E lembre-se, essa cara snobe que você faz quando degusta a convite, claro, alguma preciosidade, como se fizesse parte do seu dia-a-dia, não engana ninguém, pois todos sabem que na sua vida real você bebe mesmo é um Reservado da vida e olhe lá…