Let it snow…

Ah, o Natal… essa época mágica em que as pessoas descobrem, por exatos três dias, que o próximo existe. De repente todo mundo vira boazinha, solidária, empática — desde que caiba numa foto com filtro quente e uma legenda edificante.
Distribuem abraços como quem distribui panfleto: sem ler, sem entender, só pra cumprir tabela moral. Ajudam o próximo, mas com hora marcada. Dia 26, acabou o amor, acabou a empatia, acabou a fila da doação. Volta tudo ao normal: buzina, desprezo, exploração, cinismo e “cada um por si”, como manda a cartilha da nossa espécie adoravelmente hipócrita.
E não sejamos ingênuos: o Natal não nasceu do altruísmo. Nasceu do comércio. Foi embrulhado em papel dourado, parcelado em dez vezes sem juros e vendido com trilha sonora emotiva. Mas — eis a ironia suprema — essa ação descaradamente comercial conseguiu algo que séculos de filosofia, religião e boa vontade falharam em fazer: sensibilizar as pessoas. Mesmo que por poucos dias. Mesmo que por interesse. Mesmo que seja fake… funciona.
O ser humano não se move por bondade. Se movesse, já estaríamos salvos. O que move a humanidade é interesse, de preferência econômico. Quando ser correto dá lucro, vira virtude. Quando proteger o outro rende retorno, chama-se ética. Quando preservar o planeta entra no balanço financeiro, aí sim vira urgência.
Portanto, aceitemos a verdade amarga (e deliciosa):
não será o amor que salvará nossa espécie — será o cálculo.
Não será a empatia — será o incentivo.
Não será o espírito natalino — será o ROI.
Se para sermos menos imbecis precisamos de luzes piscando, jingles melosos e promoções de fim de ano, que seja. Melhor uma bondade interesseira do que uma indiferença honesta.
Agora, façam o favor: aproveitem o Natal.
Mas não finjam surpresa quando tudo voltar ao normal.
O Don Vinagre não finge mais. Let it sow let it snow let it snow…