Agora tem até expert em unicórnios…

Don Vinagre
Agora tem até experts de Unicórnios!…
por Don Vinagre
Tenho rido às gargalhadas com os “experts” de internet — esse zoológico de pavões emplumados que acreditam ter descoberto a fermentação porque abriram meia dúzia de garrafas caras.
Há o que chegou ontem, que repete a anedota rançosa sobre o Carmenère como se fosse sua. Um eco tardio de uma piada que já deveria estar em museu — e ele, sem idade para ter conhecido o enredo original, fala como se fosse o autor.
O professor grisalho e venerável, por sua vez, encarna a sabedoria servil. Um caso clínico de joelho gasto de tanto se dobrar. Seu doutorado é em bajulação, sua especialidade, a reverência automática. Para ele, qualquer vinho se engrandece quando acompanhado de jantar pago e viagem internacional. A garrafa é mero passaporte para o buffet. Ele não avalia vinhos: distribui tapinhas nas costas de qualquer rótulo com pedigree e prefere viagens pagas em classe executiva a um gole sincero.
Os “Masters de tudo” que colecionam diplomas de curso como se fossem medalhinhas de escoteiro. São Master disso e daquilo e já estão no nível WSET 19… Arrotam pompa, falam com empáfia, mas chamam AOC de “Apelação de Origem”, com sotaque de PowerPoint.
Depois vem o sommelier das etiquetas de luxo. Nunca postou um vinho abaixo de três dígitos, não por gosto, mas por medo de ser confundido com o povo. Viaja em jatinhos, fotografa taças em nuvens, posa de amigo do dono do avião — sem notar que é apenas o mordomo autorizado a segurar a garrafa.
A jornalista do “furo” então vive em transe orgástico: não importa se a notícia presta, desde que seja antes dos outros. A educação do leitor? Irrelevante. Informação de qualidade? Um detalhe. O contexto? Pra que? O orgasmo está em postar antes, não em informar melhor. Sua pedagogia é a pressa; seu templo, a timeline. E se alguém ousar partilhar o púlpito, vem o telefonema inquisidor: “de onde tirou isso?”.
Há aquele que nas degustações entra mudo e sai calado. Cara de entidade muito importante, ar de quem guarda segredos ancestrais. Bochecha o vinho sem jamais aspirar pela boca — o que, tecnicamente, não adianta nada, mas dá um ar de missa solene. É o oráculo que nunca revela nada: sua liturgia é o silêncio, sua homilia, a cara de paisagem.
E aquela que politiza até a rolha, exige manifestos das leveduras e transforma cada gole em passeata. Confunde fermentação com destilação, faz perguntas inacreditáveis que revelam que ainda não entendeu a diferença entre vinho e cachaça, mas — eis o milagre — depois entrega textos ótimos, quase brilhantes. Seria ela a primeira crítica vínica já editada diretamente pela IA?
E, por fim, o espécime mais curioso: o caçador de unicórnios. Já venerou Malbec 200% de barrica nova, depois jurou fidelidade aos tintos de Parker, saltou para a Borgonha, surfou os naturais, se afogou no Jura e agora só abre garrafas que ninguém jamais verá. Quer unicórnio? Ele tem. Mas não é qualquer um — precisa ser roxo, com purpurina, criado por um monge tibetano às margens de um vulcão. E, claro, com produção limitada a 300 garrafas que só ele conhece.
Eis o espetáculo. Um circo etílico onde o vinho é mero coadjuvante, e a vaidade, a verdadeira estrela.
E se você, leitor, procura por sobriedade neste hospício, lamento informar: até eu, este ácido Don Vinagre, este mesmo que adora esfregar sal nas feridas da vaidade alheia. Sim, eu mesmo já me peguei posando de entendido e presunçoso girando a taça na mão. Já bati palmas, envergonhado, mas bati, para vinhos sofríveis porque o convite era chique, já chamei de Apelação a “Appellation“ e coisas assim… No fundo, sou igual a eles — apenas troquei a bajulação pelo sarcasmo e a máscara pelo espelho.
Eu não passo de mais um personagem desta ópera-bufa. A diferença é que, ao menos, tenho a decência de ser sincero, de rir da minha própria caricatura e de brindar, com vocês, à hipocrisia coletiva que tempera cada gole deste nosso teatro vínico, onde todos querem sair bem na selfie, com carinha sensual fazendo biquinho… Hahahahahaaaaaa somos ridículos. Vamos beber.