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As entrevistas de Adriano Miolo

Adriano Miolo esteve em São Paulo para o lançamento de alguns vinhos de parcelas únicas que ele gosta de chamar de single vineyards. Dois deles por sinal de leveduras indígenas, o que me alegrou muito, o Pinot Noir, que não conheço e o Touriga Nacional, que provei no Descorchados e é excelente, uma grande surpresa e a ótimo preço (R$ 67,00).

Os outros dois são o Riesling Renano que é de vinhedo de mais de 40 anos da Almadén, hoje no Grupo Miolo e que eu espereva desde que a Miolo comprou essa empresa. Não entendi qual foi a razão de tanta demora para o lançamento desse Riesling, além desse o Syrah da Vinícola Terra Nova no nordeste.

Eu não fui convidado pelos Miolo para o evento, pois muito provavelmente eles ainda estão chateados comigo pelo meu post de 1º de abril quando divulguei que eles haviam sido comprados pela Freixenet… claro que era uma brincadeira, mas eles não entenderam, ou talvez ainda pela postura que tiveram por ocasião das Salvaguardas quando se negaram a falar sobre o assunto e eu filmei o Adriano me dando as costas e fugindo de seu stand na extinta Expovinis para não ter que me explicar aquela aberração, hoje reconhecida pelo mercado todo como um grande tiro no pé.

Bem, isso não é problema algum, pois os vinhos eu compro e provo sem problemas e o que quiser saber eu pergunto ao Miguel Angelo Vicente, que é o principal enólogo da Miolo e que é sério, competente e responde o que se pergunta.

Mas eu fui me informar sobre o que o Adriano falou, e encontrei duas entrevistas dele, uma para o meu Amigo e competente jornalista e amante do vinho brasileiro como eu, que é o Adalberto Piotto, e o outro foi no Fique por Dentro da New Trade. Os dois programas estão na página da CH2A da Alessandra Casolatto que é a competente Assessoria de Imprensa do Grupo Miolo, que fez uma enorme cobertura desse lançamento..

E é aí a razão deste meu post, pois nas duas entrevistas o Adriano faz afirmações idêntica e curiosamente no mesmo ponto da entrevista, aos 14′ do vídeo. É a respeito da tributação do vinho. Ele afirma nos dois canais que a ST do Vinho Nacional é obrigada a ser feita na venda e a do Vinho Importado na entrada da importação, por tanto sobre um valor menor, e que isso estava inviabilizando a competitividade da indústria brasileira.

Devo dizer que isso não é verdade, pois o vinho importado paga os mesmos tributos do vinho nacional e mais o de importação e a ST também é paga na venda, deduzindo o que já foi pago na importação.

Me preocupa que um importante empresário do setor como é o Adriano Miolo, faça uma afirmação dessas, pois ou mostra despreparo ou mostra má intenção. Não duvido que o lobby da indústria do vinho junto ao governo esteja novamente querendo impor sanções aos vinhos importados. Histórico que justifique minha preocupação não falta (Selo Fiscal e Salvaguardas, para citar apenas dois…).

Cheguei a consultar o conhecido expert no assunto, Adão Morellatto da International Consulting, que não faz outra coisa na vida que assessorar importações com tributos e ele me respondeu o seguinte:

“Didú Amigo,

De maneira alguma, o importado é muita mais tributado de que o nacional, veja o exemplo:

I.I.:           = ALÍQUOTA DE 27%, incidentes sobre o valor CIF (COST AND FREIGHT). Não há este Imposto para os nacionais.

I.P.I.:        = ALÍQUOTA DE 10%, incidentes sobre o valor CIF + a taxa do I.I.. (idêntico ao nacional).

PIS:          = ALÍQUOTA DE 2,10%, incidentes sobre o valor CIF. (idêntico ao nacional).

COFINS:   = ALÍQUOTA DE 9,65%, incidentes sobre o valor CIF. (idêntico ao nacional).

ICMS:       = ALÍQUOTA DE 25% , incidentes sobre todos acima, além dos custos operacionais aduaneiros. Em S. Paulo, se aplica 33,52%, pois é cobrado por dentro, chegando a este percentual.

Ao realizar a venda, dependendo do tipo de comercialização, se é venda a PF, PJ dentro do Estado ou PJ fora do estado, se aplica a S.T., que incide sobre o valor final do produto, isto é, toda a cadeia inicial da importação é transferida ao custo final, com recolhimento integral.

Portanto ao vender um vinho de R$ 100,00 para um varejista dentro de São Paulo, a empresa recolhe aproximados + 19% sobre o preço de venda, portanto a margem de liquidez de uma importadora é muito apertado, exceto algumas que atuam em nichis específicos de mercado.

A grande diferença entre Nacional e Importado é uma só, os valores lá fora são muito mais atraentes, pois tem volume, diversidade, escala e fomento.

Abs

Adão. “

Depois quando o Piotto pergunta ao Adriano sobre o crescente mercado de Orgânicos e Biodinâmicos, ele me sai com duas afirmações que me fazem pensar o mesmo, seria desinformado ou maroto, querendo ludibriar quem nada sabe? Pois ele responde que

“… Pasteur já teria dito que o vinho é a mais sã e higiênica de todas as bebidas, por tanto o vinho já por si só uma bebida natural”…

em seguida afirma que os orgânicos e biodinâmicos seria de 0,1% de mercado!! “.. não dá para pensar o vinho em 0,1% de mercado, mas em 99% da sua produção que vai para o mercado… ” (SIC)

Então me desculpe, mas quando Pasteur afirmou isso não existia agrotóxicos no Mundo! Eles iriam aparecer uns cinqüenta anos depois… e o mercado de orgânicos e biodinâmicos na viticultura mundial já passa dos 5% e é crescente e esses dados são de vinhedos certificados, quando sabemos que a grande maioria dos produtores orgânicos e biodinâmicos estão fugindo faz tempo das certificações…

Depois o Adriano diz que o projeto dos single vineyards está sendo planejado ha muito tempo, pois mapearam os mil hectares de vinhedos e selecionram 275 parcelas que mais se adaptassem a esse projeto. Mas acontece, que fora o Pinot Noir, os Riesling são de um vinhedo de 40 anos, o Touriga Nacional tem dez anos e o Syrah está plantado desde o início do projeto do Nordeste.

Então fiquei pensando, devo acreditar na sinceridade de Adriano Miolo? Ou devo me preocupar? Ou pior, será que estou velho, chato e rabujento? O que você acha?

 

 

 

 

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