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Nobel de Fritz Haber, o início do desastre.

Há cem anos, o mundo premiava Frittz Haber com o Nobel de Química por descobertas que permitiriam o ser humano desenvolver o fertilizante químico. Para quem não tem contato com esse assunto, é importante saber que para crescer as plantas precisam ter nitrogênio fixado em suas raízes. Até cem anos atrás e durante toda a nossa civilização isso acontecia de duas maneiras: a ação das raízes das leguminosas que eram plantadas entre as vinhas (ou qualquer outra espécie que se plantava) pela extraordinária ação dos raios da chuva. Veja que espetáculo o nosso Planeta.

Mas o homem sempre quer dominar tudo, se considera dono do Planeta, pois na maioria das vezes enxerga à curta distância e sua ganância ilude o pouco que vê. Muito bem, o mundo vivia o medo da fome e o ser humano crescia desproporcionalmente (basta dizer que a população mundial em 1.800 era de 1milhão de pessoas e em 1920 era o dobro, 2 milhões). Então o genial Fritz Haber descobriu como fixar quimicamente o nitrogênio e abriu caminho para a inimaginável indústria química que temos hoje. Creio que ele jamais pensou onde sua descoberta levaria o mundo. Um detalhe, ele descobriu também o gás mostarda, responsável pela morte de cerca de 200 mil pessoas na guerra, fato que levou sua mulher ao suicídio!

 

Mas o que aconteceu de tão grave com a agricultura? Não se imaginava que a utilização de químicos na agricultura quebraria o equilíbrio ecológico existente até então. Para você ter uma ideia do ecosistema de nosso Planeta, basta dizer que 1 hectare de terra virgem tem 10 milhões de vidas. Esse mesmo hectare cultivado com químicos tem 1 milhão de vidas. E o pior, tem apenas a vida daquilo que você escolheu plantar do jeito que você quer que seja, sem respeito à natureza e nem saber dos efeitos colaterais desse plantio…

A partir dos fertilizantes e do desequilíbrio ecológico, surgiram fungos, ervas daninhas, pestes diversas etc. A indústria química adorou, pois começou a produzir herbicidas, fungicidas, pesticidas e assim por diante… A agricultura ficou falsa e fraca. Basta comparar um produto resultado de cultivo orgânico com um de cultivo químico. Estamos comendo veneno e muito.

Você deve estar perguntando, o que isso tem a ver com o mundo do vinho, Didú?!

No vinho aconteceu algo muito curioso, pois as produções começaram a ser manipuladas e controladas. As monoculturas cresceram drasticamente e na parte industrial surgiram centenas de produtos enológicos. Só em leveduras selecionadas, existem mais de trezentos tipos que direcionam seu vinho para o que você quiser, Borgogne, Alsace? O que você quer?

Em paralelo a isso, críticos famosos de vinhos e com força de mercado começaram a valorizar estilos de vinhos que começaram a ser copiados, afinal recursos para isso não faltavam. Existem hoje cerca de 300 produtos enológicos à disposição para correções de todo tipo. Não é tarefa das mais difíceis chegar ao gosto que o enólogo julga ser a preferência do consumidor… Uma tristeza que levou o vinho a mesmice! Como diz Nicolas Joly, um dos Papas da Biodinâmica, “a enologia moderna só existe hoje para corrigir os erros que o homem comete no vinhedo…”

O mercado cresceu e os experts também. Todos foram formados por padrões de vinhos manipulados, aprenderam a degustar vinhos procurando defeitos, tirando notas e seus padrões foram determinados por rodas de aromas da década de 70 feitas para castas de Bordeaux basicamente, onde resultados de fermentações espontâneas eram vistos como “defeitos”.

De repente, lá pelos idos anos dos beatniks, um grupo de produtores franceses convencidos de que os estudos de Jules Chauvet eram convincentes e que era o momento de se ter vinho respeitado pela sinceridade e não pela manipulação, pessoas como Marcel Lapierre, Pierre Overnoy (para citar apenas dois famosos), resolveram fazer vinhos puros e sem intervenção, sem adição de leveduras selecionadas e ainda sem SO2! No início foi um pouco escandaloso e discreto, mas aos poucos o movimento cresceu.

 

                                                   Marcel Lapierre

Os anos passaram e Sommeliers qualificados de restaurantes estrelados começaram a prestigiar esses vinhos que incentivaram centenas de outros produtores mundo afora a fazer o mesmo. Isso incomodou os críticos e experts em toda parte, pois afinal esses vinhos tiram qualquer pessoa estabulada em conceitos padronizados de sua zona de conforto. Com o fazer para agora passar a achar qualidades onde antes se procurava defeitos? Tem que mudar a cabeça. E qual a certeza de que o vinho que se considera bom, correto, equilibrado é verdadeiro ou falso? Difícil né? Como diz o Mario Geisse: “Prefiro um vinho naturalmente desequilibrado a um vinho artificialmente equilibrado”… E você?…

 

A razão deste texto é para lembrar que o que hoje se costuma chamar de vinho “convencional” é um vinho manipulado que só existe na humanidade há no máximo cem anos, enquanto os Naturebas não têm nada de novidade, eles apenas voltaram a ser o vinho que a humanindade fez por 9 mil anos! Espreme-se a uva, as leveduras que estão nela processam o açúcar transformando-o em álcool… Esse é o Vinho. Acorda Salame!

 

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