Simplesmente Vinho – Colares

Meu primeiro compromisso em Portugal para esta edição do Simplesmente Vinho seria Colares. Colares era a vedete desta edição do simplesmente o Convidado Especial. Gosto dessa iniciativa do João Roseira, ano passado convidou o Czar da Ilha do Pico nos Açores e fez conhecer a todos. Desta vez Colares, que deveria estar merecendo mais atenção por parte dos políticos. Eu estava entusiasmado, afinal não conhecia a região de vinhos tão famosos por não terem sido atacados pela Filoxera.

 

 

Para quem não sabe do que se trata a Filoxera ou (phylloxera vastatrix), trata-se de uma praga, um pulgão que ataca a videira matando-a. Data de 1825 e teria vindo das Americas com uvas americanas. Ela tem um ciclo, como se vê no grafico acima que quando atinge as raizes das videiras de vitis-viníferas (aquelas próprias para vinhoi), secciona as raizes, levando à morte a vitis que não reage ao ataque. Não se encontrou um remédio para combate-la.

 

 

Como a Filoxera chegou à Europa vindas nas videiras americanas (vitis labruscas), e estas eram resistentes à praga, a solução encontrada foi enxertar as castas de vitis européias em raizes de vinhas americanas.

Pois é… hoje todo o vinho europeu, seja um 1er Grand Cru Classé de Bordeaux ou um Grand Cru de Bourgogne, têm suas castas enxertadas em raízes de vinhas americanas…

Duas curiosidades:

Curiosidade 1:

Poucos sabem disso e esta serve de pegadinha para experts… Você sabe qual a razão das raízes americanas não se afetarem com a Filoxera? Acontece que quando elas são atacadas e a Filoxera secciona suas raízes, as americanas reagem produzindo novas raízes acima do corte. Dessa forma a Filoxera na verdade serve para fortalecer as americanas… as vitis-viníferas não reagem e morrem.

Curiosidade 2:

A Filoxera morre por afogamento. Uma curiosidade também que poucos sabem, mas eu mesmo vi esta prática quando visitei a Terrazas em Mendoza e o enólogo de então, o famoso e conhecido Roberto De La Mota, me demonstrou isso. Ao lado de cada fileira de vinhas, cava-se um sulco, uma espécie de valeta e enche-se de água por alguns dias e a Filoxera morre por afogamento.

 

Casta Ramisco em dormência. Ela cresce solta no chão em função dos ventos fortes da região.

Bem, mas e por que o vinho de Colares não foi atingido pela praga e ficou tão famoso? Aqui a explicação é outra. As vinhas Ramisco (tinta) e Moscatel de Colares (branca) são plantadas em areia e na areia a Filoxera não ataca, pois a raíz não está na verdade na areia mas abaixo dela, na argila, porém a camada de areia é profunda e não permite que a praga respire, não há oxigênio para ela.

Para se plantar novas videiras, é necessário tirar a areia, plantar as vinhas na argila e assim que ela vai crescendo, recobre-se com areia, Veja:

 

 

Colares é região demarcada desde 1908, mas a origem dos seus vinhos remonta a 1255, quando D. Afonso III fez a doação do Reguengo de Colares, obrigando a plantar aí videiras vindas de França, porém não se tem notícia da casta Ramisco fora de Colares… A DOC Colares é apenas para os vinhos de Dunas, de areia, pois há muito mais produção em Chão Rijo que não é DOC pois é direto em chão de argila.

Cheguei em Lisboa numa fria manhã de segunda feira, às 5:50 da manhã e já estava lá à minha espera o simpático Francisco Figueiredo que é o enólogo da Adega Regional de Colares.

Uma curiosidade que poucos sabem, é que essa Adega durante anos foi a única com permissão de vinificar vinho em Colares. Assim todos levavam suas uvas para lá e a Adega Cooperativa é quem vinificava para todos. Há ainda como sempre em todo lugar, os pequenos produtores artesanais que fazem seu próprio vinho em casa, mas não são representativos.

Quando esse decreto caiu, se não me engano em 1994, todos estavam habituados e assim continua até hoje.

 

Um drama porém acontece em Colares atualmente. Suas vinhas hoje são uma raridade, pois houve grande valorização imobiliária e as vinhas que ocupavam 1.150 hectares em 1970, hoje não passam de 20 hectares!!! Algo simplesmente inaceitável culturalmente. Não houve ninguém que pensasse em alguma lei que obrigasse o comprador a preservar 10% que fosse de sua área para manter as vinhas que foram arrancadas. Eu acho muito triste isso.

Acima você vê uma parcela remanescente e sua proximidade com o mar.

Bem, o Francisco me deixou no agradável e elegante Tivoli de Sintra para um descanso e às 11 horas chegaria o José Baeta, atual proprietário da Quinta Viúva Gomes, a mais antiga de Colares para uma visita à região. Colares fica a sete quilometros da Serra de Sintra.

 

A Adega Regional de Colares, fundada em 1931, é a mais antiga do país (eles dizem). Reúne, atualmente, a maioria dos produtores da Região Demarcada de Colares, exercendo uma importante função social no concelho de Sintra.

O prédio é imponente, o seu interior é deslumbrante pela dimensão e número de tonéis, constituindo a zona de descanso e afinamento em madeira da Região Demarcada e servindo para eventos também.

Eles costumam dizer: Produzimos vinhos temperamentais do Velho Mundo Vitícola! Redescubra-nos!

 

 

Visitando a adega vi um curioso tonel cônico em madeira, com uma espécie de taça na parte superiror e fiquei muito curioso. Perguntei ao Francisco e minha curiosidade virou espanto. Veja:

 

 

Absolutamente sensacional. O Francisco jovem assim já fez mais de 18 vinificações em Colares e sabe de tudo. Uma simpatia. Saimos de lá e fomos visitar umas vinhas onde pude constatar essa surpresa que é Colares.

 

Eu considero Colares um patrimônio Cultural da Vitivinicultura mundial. Seus vinhos tradicionais eram feitos com 100% de engaços para dar sua estrutura e longevidade. Hoje usam apenas 40% dos engaços, para que se possa comercializar antes e fazer dinheiro. Fazer dinheiro é o que o homem quer, preservar a cultura e as tradições que fique para depois…

 

 

A Adega Viúva Gomes, fundada em 1808, está situada na povoação de Almoçageme, freguesia de Colares, num perímetro vinícola demarcado em 1908, caracterizado pelas dunas e solos arenosos, presentes no litoral do concelho de Sintra, entre a Serra e o Oceano Atlântico, desde o Cabo da Roca a Magoito.

 

Eles ainda têm um belo acervo lá e imaginem, se vendia Colares em garrafão há anos atrás… Eu fotografei alguns, que obviamente estão vazios…

 

 

O lugar em meio a cidade é convidativo ao enoturismo que lhe rende boas vendas. Gravei com o José Baeta, vejam:

 

 

O José Baeta me abriu algumas garrafas mais antigas, de branco e de tinto e em especial uma garrafa de Ramisco de 1969. Vejam bem 1969!! Era os de 100% de engaços. Pois a elegância do vinho era simplesmente indescritível. Fino, vivo, longo, sóbrio, daqueles vinhos que poderiam acompanhar qualquer prato de tão elegânte e agradável que estava. Fiquei tão embasbacado que o simpático e gentil José Baeta em sua generosidade me presenteou uma garrafa igual para trazer na mala. Só assim conseguiu que eu parasse de babar…

 

 

Se vale de alguma coisa, deixo aqui uma sugestão para se resgatar o plantio do Ramisco em Colares: As casas que plantarem ao menos 1 planta de Ramisco, terá isenção de impostos e a Cooperativa se encarregará de cuidar e colher a Ramisco. Há espaço suficiente para isso nas verdadeiras mansões que se construiu lá. Um verdadeiro pecado ver um vinho desses praticamente agonizando. O trabalho de pessoas como o José Baeta, tentando recuperar áreas e o pessoal da Adega Cooperativa de Colares é um trabalho praticamente socorrista. As associações e entidades do Vinho de Portugal não podem deixar Colares na situação em que se encontra.

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