Simplesmente… Vinho 2017 – Dão

Acordei quarta feira numa bem fria Lisboa. Deixei o aconchego do casal Rita e Vitor Claro e fui de trem com destino ao Dão… Foram tres horas deliciosas que me permitiram ler o livro O Vinho de Colares, uma reedição do livro de 1938 editado pela Adega Regional de Colares. Vi meus e-mails com o wi-fi do comboio que caia bastante mas foi suficiente para postar alguma coisa… E claro curtindo um Bob Dylan de leve..

 

 

 

 

Cheguei à estação de Nelas e lá estava meu Amigo Alvaro de Castro com um lindo BMW, à minha espera. Era a segunda vez que visitaria a Quinta da Pellada. Ele gosta de acelerar e eu também, curti esse caminho entre Nelas e Quinta da Pellada onde a velocidade certamente não foi respeitada, mas ao chegar em sua quinta, vejam a placa que o Alvaro colocou na entrada…

 

 

Eu me sinto da família com o Alvaro de Castro, tenho admiração por ele e seus vinhos (chegam pela Mistral) seu bom humor, sua integridade em lidar com a natureza de seus vinhedos, o trabalho discreto impecável que ele faz, sem contar vantagens e jamais agredindo suas plantas com químicos, sua contribuição pela preservação da história, restaurando um lindo prédio na propriedade. Isso tudo sem contar seu bom humor.

Há referências sobre a Quinta da Pellada que datam de 1570, aproximadamente. Em 1980, o  Álvaro de Castro herdou a propriedade e, dedica-se exclusivamente a ela, fazendo maravilhas. O Alvaro, verdade seja dita, sempre foi um produtor alternativo, sempre usou leveduras indígenas e nunca se vangloriou disso ou ufanou-se de suas práticas biodinâmicas neste momento repleto de oportunistas no modismo.

 

 

Logo que chegamos, o Alvaro deixou seu BMW e passamos para sua tradicional Land Hover que nunca quebra e já tem idade. Parece que a caminhonete só funciona com ele… Saimos me deparo com esta cena:

 

 

Visitamos a propriedade e pude gravar alguns vídeos com o Alvaro. Peço desculpas por alguns momentos em que o vento atrapalha o áudio. Veja este comentário do Alvaro, falando sobre produtos enológicos…

 

 

Não é o chatododidu falando não, é simplesmente Alvaro de Castro…Ele explicou o que alguém deve esperar do Vinho do Dão. Muita sinceridade e elegância.

 

 

A elegância do Dão. Alvaro de Castro explica o solo do Dão. Desculpe o áudio por conta da ventanina. Gostei de ver também, a opinião do Alvaro a respeito dos produtos enológicos… Me fez lembrar o Nicolas Joly quando afirmou que a enologia moderna só existe para corrigir os erros que o homem comete no campo…

 

Voltamos para a quinta e degustamos diversos ensaios do intrépido e entusiasmado Luis Lopes, enólogo que está há anos com o Alvaro e a quem o Alvaro trata como filho. É bonito de ver o que eles discutem e o que pensam sobre o trabalho nas vinhas e na quinta. Adorei diversos vinhos que provei, como o Encruzado sem sulfuroso. Espetacular, sem filtragem, bruto sincero e delicioso. Sabiam que o Alkvaro tem um Nebbiolo la? E delicioso!!!

Gostaria muito de ver vinhos alternativos da Pellada assinados pelo Alvaro. Nem precisa ser Pellada, que é marca estabelecida e respeitada, com mercado consolidado, mas um novo rótulo, que mostre as particularidades e curiosidades desses ensaios. Acho que teria valor e seria “Cult “. O Alvaro está em bom momento para isso, muita maturidade e conhecimento empurrado pela ousadia e entusiasmo do Luis, com quem aliás deveria ter uns rótulos assinados a quatro mãos. Ele me disse que gostaria de não vender seus vinhos, mas apenas dá-los a quem realmente entendesse e gostasse deles… Lindo isso.

 

 

Como o tive o privilégio de um almoço em família, com a Maria de Castro que é meio brasileira, e seu filho, além do Luis, tive a oportunidade de provar parcelas distintas de seus vinhedos. Um show à parte. Adorei que o Alvaro e eu concordamos sobre como se mostravam os quatro vinhos. Luis e Alvaro discutiam pormenores das amostras, de que tanques eram, o que havia sido feito, etc., etc., uma sintonia rara entre o dono da quinta e um enólogo. Uma sorte para os dois terem se encontrado. De ouvidos atentos, o filho da Maria observava tudo…

 

 

Aliás, soube depois, que o Alvaro de Castro foi o único produtor do Dão, naquelas redondezas, procurado pelo Antonio Madeira, que lhe estendeu a mão com espaço na adega. O Luis e o Antonio têm idades parecidas, são amigos, parceiros e isso é ótimo para eles. Bonito saber disso. Veja a maturidade e a seriedade de um produtor consagrado.

 

 

Acabado o almoço chegou o Antonio Madeira que iria me mostrar seu trabalho. Importante saber a trajetória do Antonio, nascido francês filho de pais portugueses. Vem de família humilde, mas freqüentou boas escolas em Paris.

Em visitas à sua avó no Dão, se encanta com a possibilidade de produzir vinhos de autor, recuperar Vinhas Velhas e fazer vinho Grand Cru.

Importante lembrar que Vinhas Velhas, não se trata apenas da idade das vinhas, mas principalmente o fato dessas vinhas terem mescladas inúmeras castas, inclusive misturando-se tintas e brancas. Isso acontecia muito no passado, principalmente no Dão e no Douro, pois o vinho fazia parte do alimento das famílias. ele não poderia faltar e por tanto se alguma doença atacasse alguma variedade, sempre haveriam outras que salvassem algum vinho para a casa.

O Antonio então saiu a busca de vinhas mal cuidadas, ou mesmo abandonadas, em mãos de herdeiros sem  o sangue de vitivinicultor e começou a arrenda-las para recupera-las e produzir vinho. Caminho duro e longo. Aqui o Antonio fala um pouco desse trabalho, veja:

 

 

Porém o Antonio veio cheio de boa vontade voltar para suas origens e imaginou ter uma receptividade maior do que teve. Como comentei acima, o Alvaro de Castro, talvez o mais renomado produtor daquela região foi o único a lhe oferecer ajuda, uma vez que o Antonio não tinha onde vinificar inicialmente. Ainda hoje se vira na garagem da casa de sua avó e como já contei em edições anteriores do Simplesmente… Vinho usava sacos de gelo para segurar a temperatura de alguma fermentação…

Para se ter uma idéia do que ele passou, o Antonio arrendou uma vinha velha, (hoje ele tem quinze delas), demorou tres anos recuperando essa vinha, com muito trabalho, sem render-lhe nada, até que a vinha voltasse a responder e produzir uvas. Pois nesse momento, um outro produtor de ética no mínimo duvidosa, procurou o proprietário da parcela lhe oferecendo mais dinheiro por ela e esse proprietário, não teve o menor problema de caráter ou de consciência e passou o arrendamento para a oferta maior, apenas comunicando ao Antonio que a vinha não mais seria arrendada para ele… Imaginem isso para alguém que está lutando para ser alguém no mundo do vinho em sua terra de origem…

 

 

Mas o fato é que seu trabalho tem feito muito sucesso e tem incomodado muita gente. Logo você verá o nome Antonio Madeira e seus Grand Crus, bombando de sucesso, não tenho a menor dúvida. Eu estive em sua parcela “A centenária”, onde há vinhas com mais de cento e cinqüenta anos e depois provei o vinho na adega… foi de emocionar, de verdade. Lindo ver a correspondência de uma velha senhora ao rapaz que lhe deu uma sobr-evida. Gravei com o Antonio lá para você ver como é.

 

Me emociona toda vez que provo vinhos de idade, ou vinhos de vinhedos com idade. Fico sempre imaginando a história passando ao lado da garrafa, ou do vinhedo, tudo que elas viram, o que se passou, quem a produziu, quem a plantou, quem eram essas pessoas… E finalmente o destino ter nos juntado. Mágico e emocionante isso para mim.

O Antonio conversou comigo sobre a distância que a imprensa do vinho portugeues de modo geral tem desses vinhos naturais, que parece ignorar o que se passa nesse universo vasto e diversificado do vinho, veja:

 

Minha sugestão ao Antonio, que tem idade para ser um filho meu, foi a de ignorar a imprensa que lhe ignora. Sua qualidade é muito grande e seu trabalho em defesa de uma cultura milenar de vinho no Dão, são muito maiores ainda. Penso que um trabalho como esse que o Antonio Madeira vem fazendo, mereceria ter apoio governamental em nome da cultura. Ele merece um reconhecimento por esse trabalho que precisa ser feito em nome da preservação cultural.

Terminamos nossas visitas a diversas parcelas e a sua adega garagem e j®á escurecia. Fomos ter com o Alvaro de Castro para uma despedida e fomos jantar, Antonio, Luis e eu. Eles tiveram que aturar o velho do Didú… e foram tão cordiais me oferecendo muito mais que mereço, como o caso desta garrafa que estava simplesmente SUBLIME…

Estes vinhos foram os vinhos que deram fama ao Dão como sinônimo de elegância e longevidade. Vinhos que não tinham modismos, não ouviam as palavras de críticos de vinho, mas que faziam com paixão seu trabalho. Fui dormir feliz pois na manhã seguinte um outro comboio me levaria para a Bairrada. Saúde.

Tagged: , , , , , ,

Deixe um comentário